Tuesday, August 01, 2006



A possibilidade de amar.

Sua volta foi triste. O caminhar pela Avenida Paulista em meio à tantas luzes que por diversas vezes foram a meia luz daquele amor inabalável, foi longa e infinita. Não havia forças se quer para levantar o rosto e sentir a garoa daquele gélido julho caindo sobre seu rosto abatido. Um rosto que carregava marcas, muitas, cada traço naquela noite parecia ser o leito da dor do mundo, parecia ter a profundidade de um cannion, por onde corria o espesso líquido da melancolia. Aquele rosto trazia consigo as marcas do indefensável golpe da quebra... do rompimento, do fim em si.

Perambulando num sem rumo, atravessava por entre os carros e seus faróis, numa evidente busca de sentido, de carinho, de compreensão, de alguém que o pudesse segurar pelos braços, protegê-lo do sereno leve que caia e dar-lhe o ombro em sinal de ternura. Ternura... foi tudo o que ele...

Enquanto sua cabeça girava e seu coração sentia aquela sensação estranha e insuportável, aquele aperto de que passamos a vida fugindo, algo que se tivesse cor seria um amarelo fustigado e morto, de folha seca que despenca no outono, enquanto seus ombros pesavam feito sacos de cimento duro e velho, seus olhos choravam... sem pudor, sem medo, sem a menor vontade de parar... Em alguns momentos, quando não estava absorto em seus pensamentos sobre a forma com que tudo acabara, sobre como o fim poderia ser tão inesperado, sobre como nem toda vontade consegue vencer às chuvas, o frio e às tempestades de areia, aqueles incontáveis momentos em que nos sentimos perdidos, cegos, precisando desesperadamente retirar a cabeça para fora de alguma forma e observar de cima, de fora, de outra maneira, enquanto não pensava nisso, notava que de seus olhos brotava mais água do que a que escorria por sua jaqueta de couro preto que o protegia da umidade fria da avenida naquela noite especialmente.

Pensou ele que esta é uma cidade que endurece as pessoas, que as torna inacessíveis por períodos longos demais. Tempo demais às vezes transforma a tensão em quebra. E ele tinha medo, sempre teve. O medo da solidão, da velhice, da falta daquele calor a que ele aos poucos se acostumava. As mãos no bolso não deixavam que sue sangue circulasse naturalmente, mas nem parecia ser este o seu objetivo... ele queria caminhar, andar talvez a procura de um esbarrão, fosse em alguém ou na melhor das hipóteses num carro em alta velocidade. Vez ou outra, nosso inconformismo pode nos ser fatal.

Lembrava das últimas palavras que ouvira a pouco e sentia que elas ainda o cortavam, feito facas cegas, enferrujadas, possuidoras de um tétano mortal que paralisaria suas pernas, braços e tudo mais, tétano que ele torcia para que paralisasse também seu coração, suas idéias, sua mente, seus pensamentos. Queria desaparecer feito ar e ser poupado de ter que lembrar de cada uma daquelas palavras para sempre.

Foi quando, num súbito lampejo de esperança, de vontade incontida de amar que tomou conta de seu frio e abatido corpo, deu meia volta. Decidiu que não era este o fim que ele pensou, não foi o que ele desejou, tirou as mãos do bolso e correu de volta, enfrentando a noite cortante e o vento contrário da avenida. Correu disposto a reaver, a retomar, a reconquistar o que nunca deixara de ser seu. Tomado por uma força descomunal e incessante, dava passadas largas na direção do que julgava ser seu destino, seu grande amor, sua grande chance, sua única possibilidade de sobreviver ao afastamento e a solidão implacável que esta cidade nos submete. Era o inconformismo com o fim, com a quebra, com o capítulo final. Sua propulsão era tamanha que nada via à sua frente, nem poças, pessoas, buracos, carros, luzes, jardins...

Enfim ele chegou. Em frente ao cinema onde aquele relacionamento há poucos minutos havia terminado e o descontruído de tal forma, que por alguns segundos em sua caminhada ele chegou a pensar que só a morte o aliviaria da dor do desamor, ele infiltrou-se pelo aglomerado de gente, que mantinha a distância da dignidade e do respeito à poça de sangue quente que não cheirava, mas imprimia ao ar aquela fumaça inconfundível, abaixou-se lentamente, segurou sua mão que de tão quente não lembrava em nada alguém sem vida, e cessou o choro.

Olhou profunda e sinceramente em seus olhos, pediu desculpas e num murmuro, fez - lhe uma última declaração de amor. Tarde... o rompimento, a quebra, o afastar-se, as palavras foram muito mais duras para ela, que não teve forças nem para pensar sobre o assunto. Ela encontrou a solução distante só três metros da calcada do cinema, embaixo de um caminhão que levava flores para abastecer as barracas da Dr. Arnaldo...

Nós e a nossa (in) possibilidade de amar...

Monday, July 31, 2006


08:47...


Meu coração parou de bater exatamente às 08:47 da manhã.


Não foi ruim, não doeu, tampouco a sapiência da proximidade à morte nos segundos derradeiros que antecederam o fato, fez-me temer... foi tranqüilo. Uma passagem digna, um alívio a um coração cansado, que, se já não bombeava dignamente meu espesso e vulcânico sangue, que dirá sonhos.

Concentrei-me antes do adorno, em rememorar cenas da minha vida, momentos que fizeram toda a diferença. Tentei escapar do clichê, mas, uma das revelações que vêm à tona quando se morre, é que a morte é um clichê. Ainda na contagem regressiva, foi estranho a primeira lembrança a me vir à mente ser o tombo que levei quando ganhei minha primeira bicicleta. Vermelha, da cor do sangue que petrificava aos poucos, me serviu de primeiro veículo de um lugar a outro, mas foi mais importante ao não me deixar apagar nunca da memória o primeiro tombo, o primeiro choro, o primeiro joelho arrebentado que ao ser ensopado de mertiolate ardeu feito sulfurico que consome a alma, enquanto minha mãe dizia... "Assopra... assopra.. assopra...", e eu assoprava. Junto ao ar expelido por meus frágeis e pequenos pulmões, gotejava por sobre a ferida a água salgada e sincera que meus invioláveis olhos teimavam em não segurar. Aquele dia, no campinho de futebol, levantei-me pela primeira vez de uma dura queda. A primeira queda de tantas que viriam pela frente. Mas me lembro que levantei, como tantas outras vezes.

Enquanto o ar lentamente tomava outro rumo dentro de mim que não o de meus pulmões, lembrei de minha estréia como ator. Lembrei do nervosismo antes de entrar no palco... lembrei do frio na barriga, que corria a espinha e parecia terminar em algum lugar entre a nuca e o calcanhar... lembrei dos olhos da platéia... o espiar entre as cortinas antes da apresentação começar... os incessantes aplausos familiares ao final da apresentação. Lembrei também de tantas outras vezes que entrei em cena, que fiz o que mais amava, que fui alguém além de mim. A emoção enfim... alegria, no sentido mais literal, subjetivo, mágico e lírico que esta palavra possa ter.

No momento em que meus olhos começaram por si só a formar figuras reluzentes, estrelas cadentes dentro da minha cabeça, feixes de luz que atravessavam minhas pálpebras como flechas disparadas por algum cupido perdido entre a escuridão de minha iminente morte e o céu azul que esperava eu, me recebesse dali a segundos, lembrei de meus amores... e foram tantos! De minhas paixões... e foram tantas! Lembrei-me de cada rosto... de cada noite... de cada entregar-se sem a menor vontade de devolver-se... lembrei dos suspiros, que se juntos corressem naquele momento dentro de meu coração, me dariam ao menos mais alguns anos de vida e seriam respiro ao meu cambaleado coração. Foram tantos olhares para sempre... juras que nunca foram cumpridas e por diversas vezes esquecidas ao lavar do rosto... tantos beijos.. tantos carinhos... tantos momentos em que , como eu mesmo sempre defini, estive em alfa... letárgico... absorto... leve... distante. Por tantas vezes fui feliz, fiz feliz, por tantas fui o mais importante e por tantas outras fiz de cada aura boa que se entregou a mim com tamanha confiança e vontade, a mais importante. Não me arrependo de uma só que fosse. Todas valeram mais que a pena... valeram vidas, sonhos, descobertas, sorrisos, lágrimas, suspiros, acenos, despedidas. E é paradoxal, neste momento em que o ar falta abruptamente aos pulmões e seria a minha salvação, que eu sinta tanta saudade dos momentos em que esse mesmo ar era interrompido para que se realizasse o máximo, o ápice....

É chegada a hora... são 08:46 e me restam apenas 15 segundos de vida neste corpo que agora, assume o seu fim. As luzes, de que tanto falam e tanto se espera ver ao fim da vida, começam lentamente a aparecer. Mas não em forma de salvação, de esperança, de nada. São pontos... são como pedras.. seriam caminhos? Teria eu de pular sobre uma e outra para chegar ao outro lado? Que terá lá? Existirá um "lá"? Aos poucos , talvez a 5 ou 4 segundos do fim, sinto algo se descolando... e confesso que senti pela primeira vez uma pontada de dor, mas foi breve, não chegou a colocar em meu rosto nesse inesperado alegre fim, uma expressão contorcida.

Aos poucos, me senti leve... flutuando realmente – eu disse que a morte era clichê - me vi deitado, vi meus olhos se fecharem lentamente comigo ainda lá e num sopro, num golpe de ar que até a pouco era inexistente, fui arremessado contra uma parede de imagens.. meu passado... meus pais... meus irmãos... meus amigos... meus momentos de solidão... todos os cachorros que tive na infância e os que me fizeram chorar por não tê-los, os domingos na casa da minha avó... as manhãs de Sábado pescando com meu pai a beira da represa... os incontáveis abraços de minha mãe... os sorrisos que colecionei pela vida... minhas mágoas... meus amores... meus desamores...

Quando senti que esta parede foi rompida e como uma fruta madura despenquei em meio a vegetação rasteira de um lugar que jamais estivera antes, mas que me deixava feliz por estar ali, abri meus olhos, encontrei o céu azul que sempre pedi que fosse minha primeira imagem após o fim, enchi num belo gole de ar meus pulmões que chegavam a estalar de vida... virei a cabeça de lado, e sorri, ao me deparar com o que em momento algum de minha vida, menos ainda de minha morte, poderia imaginar...

... uma bicicleta vermelha ...a minha bicicleta... com um recado pendurado no guidão, que dizia...

" Estou pronta, e você?"


08:48...

Saturday, July 29, 2006


Extremidades.


Foi quase um pesadelo. Foi inacreditável. Quisesse eu explicar o que se passou dentro de mim no momento exato da ruptura, não conseguiria, tampouco o que se passou com ele.

Nesta Sexta passada (28), fui me apresentar em Extrema/MG, que com um nome tão sugestivo, só poderia mesmo me reservar surpresas limítrofes. Aos que lêem este Blog - e eu acho que ninguém lê – e também aos que não lêem, vou resumir rapidamente o que faço para que haja entendimento.

Apresento-me em empresas com um personagem que sofreu um acidente do trabalho e ficou cego e paralítico. A grande sacada é que ninguém sabe que sou ator, e acreditam realmente que sou um deficiente físico que está ali contando sua história de vida. Uma história triste e emocionante, que tem a capacidade de sensibilizar e emocionar. Só ao fim da apresentação, de forma lenta, e surpreendente, me levanto da cadeira, me apresento como ator e revelo a verdade. Ponto. Isto posto...

Estava eu, no momento crucial da apresentação, com olhos cheios d’água, voz embargada, choro copioso entre pausas e expressões, iniciando meu levantar e preparando a revelação da verdade... observando de fora a platéia emocionada, junto, tensa, às lágrimas... entregues como passageiros num ônibus que eu conduzia para onde quisesse desde os primeiros minutos de cena, quando me coloquei de pé numa perna e com um esforço dramático que a cena pede, juntei a outra, trêmula, e quando já enchia o diafragma para expelir a velha máxima que sempre atenua minha mentira - "Meu nome é Douglas, sou ator, e isso é Teatro" – antes da primeira sílaba, um homem se levanta em meio a platéia, com uma expressão nos olhos que confesso, jamais vi, soca o ar com as mãos e diz, vindo na minha direção e como se fizesse parte do espetáculo...

"Isso! Levanta! É o salvador entre nós! Você consegue! Salve ! Salve! É o poder da salvação! Vai! De pé! Isso! Caminha!"

Eu não tinha palavras. Eu não tinha ação. Eu, pela primeira vez, não sabia o que fazer em cena. Não era uma "saia justa", não era um bêbado que quando se é palhaço, basta uma piscada à segurança que esta some com ele dali antes que você pisque os olhos, não... era gente comum, era alguém acreditando presenciar um milagre, alguém tomado pela imensa e inimaginável força de se presenciar um milagre... E eu garanto, agora por experiência própria, que nenhum de nós está preparado para presenciar um milagre.

Já junto à mim, olhou-me nos olhos como ninguém – repito – ninguém, jamais me olhou. Como se tomado por algo, uma força que vai além da humana, me disse: "Você está aqui! Você é o salvador! É o poder! A força! É Você!". Não havia resposta minha que adiantasse de algo. Não havia palavras, não havia nada. Foi um vácuo... uma pausa no tempo entre um momento e o seguinte. Foi a primeira vez que vi uma ação, não causar uma reação. Foi a catarse.

Talvez quarenta e cinco.. cinqüenta segundos no máximo, mas que duraram o tempo de uma vida. E quando pensei, já no momento que alguém educadamente o retirava da sala que tudo se amenizaria, olhei para baixo, na primeira fileira, e uma mulher com seus vinte e poucos anos dizia, com as mãos trêmulas, olhos encharcados e voz que fugia para dentro da garganta "Ele está de pé! Meu Deus! Ele está de pé!" Então, neste momento, meu interlocutor maior, quase à saída, se vira à platéia incrédula, volta a socar o ar e repetir sílabas que não formavam palavras, que não formavam frases, mas que diziam algo, queriam dizer algo! Me veio à mente o filme STIGMATA, no momento em que a protagonista é tomada pelo Espírito Santo e desata pronunciar sons em, pasmem – Aramaico.

Sim, foi o que me veio a cabeça. Era um "Gran Finale" merecido à uma experiência humana que estava sendo escancarada ali aos olhos de trezentas pessoas. As sílabas que minha réplica pronunciava, não tinham nexo, ordem, nem explicação, mas me causaram arrepio, me atordoaram, causaram pela primeira vez em minha vida uma sensação que jamais havia experimentado em sua plenitude: A Dúvida. Naquilo que ela pode ser mais devastadora... O quê é real? Até onde eu fui real? Até onde interpretei? Até onde o que vi era mentira? Até onde o que vi era interpretação? Era interpretação? Quem estava ali? Fui extremamente convincente ou meu interlocutor passava por um momento extremo em sua vida, o que desencadeou uma reação tão inexplicável? Quais são os limites da fé? Da crença? Quais são os limites do meu trabalho? Algo foi transcendido ontem... mas o quê? Que olhar foi aquele? De onde surgiram aquelas palavras que apesar da falta de sentido, diziam claramente algo?

São mais perguntas que respostas... não tenho respostas. Preciso de um chope, uma caipirinha e um papo com meu amigo Eder. Voltarei na próxima a falar sobre isso, pois eu garanto, esse assunto é pano pra manga.

Sunday, July 23, 2006

Domingo.

"Hoje é domingo, pé de cachimbo. Cachimbo é de ouro, bate no touro. O Touro é valente, bate na gente. A gente é fraco, cai no buraco. O buraco é fundo, acaba o mundo."

Toda vez que lembro que é domingo, em todo domingo, lembro desta frase que vem lá da infância e sei lá por quê cargas d'água surge toda vez! Gosto dos domingos, gosto da cara que os domingos tem. Não adianta uma esperta Segunda- feira cair num feriado e tentar se passar por domingo porque ela não consegue! Não me engana! Domingo tem um ar diferente, um sol diferente, e não é só porque tem aqueles programas ridículos de televisão que denunciam o domingo que eu o reconheço... Eu saberia que é domingo até se estivesse chovendo!

Domingo tem bons e maus lados. Me lembra a família reunida... ir à feira de manhã com meus pais... voltar pra casa e ir soltar pipa ou jogar bola na quadra com meus amigos enquanto minha mãe fazia o almoço e meu pai montava ou desmontava alguma coisa na garagem... ouvir o jogo de futebol com meu pai no fim do dia... ir pra domingueira ficar admirando as garotas bonitas que jamais chegariam a me dar bola... ficar imaginando a possibilidade de estar com elas... ser disputado por elas... sonhando enfim!

Este é o lado bom. O lado ruim é que muito disso ficou pra trás. Tudo eu diria.

Depois de ir morar sozinho, muita coisa muda na vida na nossa vida. Mas os domingos mantém seu tom de nostalgia. Criamos novos hábitos, novas manias, novas situações que daqui a alguns anos também serão motivo de nostalgia...

Hoje em dia, tenho mania de aos domingos, descer à rua pra comprar pastel e vinho. Compro pastéis de carne, palmito, frango com catupiry e de vez em quando um especial (que é muito grande, sempre acho que vou enjoar!). enquanto o pastel é feito, vou ao mercado e compro vinho. Tinto. Seco (Porque Luciana de Melo e "Sideways" me ensinaram a tomar vinho seco. Melhor! Me ensinaram que vinho "é" seco!) Vinho francês com pastel de feira, é uma delícia! Comprados os dois, passo na banca e compro o Jornal da Tarde, que meu pai sempre comprou e me ensinou a ler, e quando digo isso, falo do ritual de dobrar o jornal inteiro antes de ler pra ele não ficar todo amassado! Não sou organizado para guardar minhas contas de luz, mas para ler o jornal sou até demais!

Em casa, corto o pastel em pedacinhos, abro o vinho, preparo o jornal, sento no sofá e começo ler, comer e beber, sempre ouvindo uma boa música. Me sinto no céu, dono da minha vida e escultor do meu domingo.

Aprecio ter certas manias. Gosto de ir à praça ver as crianças brincarem também enquanto as vezes, leio o jornal lá. Sento-me entre bolas, babás, mendigos, motocas (eu prefiro chamar de "motoca"), mães desesperadas com a Brigadeiro tão próxima e cachorros que correm mais atrás das bolas... que as próprias crianças! Caminhar até o Ibirapuera também é muito interessante, mas voltar a pé... nem pensar! Pego o ônibus lá e desço em frente de casa!

É bom ir ao Teatro nos finais de domingo... gosto de ver meus pares. E ao final da noite voltar pra casa, assistir algum programa interessante na TV, pensar no resto da semana, guardar roupas, lavar a louça...

Adoro os domingos e acho que ninguém deveria trabalhar aos domingos. Todos deveriam poder tomar vinho francês comendo pastel. Todos deveriam poder ir com suas famílias à praça e ver as crianças descerem no escorregador e sentarem o traseiro na areia chapada, ver os cachorros correndo e latindo para os carros... todos deveriam poder ler seus jornais debaixo deste céu azul de inverno que é tão infinito...

Todos deveriam poder soltar pipa e jogar bola enquanto seus pais montam e desmontam alguma coisa na garagem e suas mães preparam um belo peixe com batatas.

Todos deveriam ter boas lembranças de domingos.

Eu adoro os domingos.

Tuesday, July 18, 2006

Hoje.

Hoje é um daqueles dias em que o tempo passou arrastado. Por mais que eu inventasse idas ao banco, ao boteco tomar café, à praça observar as crianças no parque, não houve o que fizesse o dia passar mais rápido. Engraçada esta relação que temos com o tempo... como podem os dias felizes serem tão curtos e os levemente tristes demorarem uma eternidade?

Sentei, escrevi, apaguei, inventei uma faxina na casa, guardei a roupa, lavei a louça (enfim!), brinquei com a Maria, inventei de tudo um pouco... e quando me dei conta já eram... 11:30 da manhã!

Eu sempre fui assim, quando havia algo importante a ser feito daí dois dias.. três... eu ficava torcendo para os dias entre um e outro passarem voando! Dormia mais cedo para o "amanhã" chegar mais rápido! Sempre fui meio imediatista, sempre quis que as coisas se realizassem logo... sou um fã de resultados e um aprendiz da paciência adulta! Sou paciente, mas para pescar! Fico 3 horas a espera de uma beliscada na bóia tranqüilamente! Mas não consigo esperar 20 dias por uma apresentação que pode ser a salvação da lavoura e um dos passos mais importantes da minha vida nos últimos anos...

Ô menino ansioso... talvez por isso eu reclame da demora em passar o dia... a esta hora estou com um pouco de dor de cabeça... um pouco de fome... um pouco cansado (de quê?)... sem saber o que fazer para o jantar e sem mesmo saber se vou jantar...Estou triste hoje.. carente mesmo. Hoje era dia pra estar junto... de mãos dadas... debaixo das cobertas vendo TV! Pensei em ir ao cinema, não tenho problemas em ir ao cinema só, a não ser nestes dias em que me sinto só demais e tal atitude é uma aferroada na auto estima. Não! Prefiro ficar em casa... de repente o telefone toca, ou chega um email ou eu cruzo alguém no elevador entre um ir buscar dinheiro e ir buscar comida... de repente algo acontece, alguém acontece, de repente... não mais que de repente...

De repente acho que é melhor desligar este computador. Vou comer um cheese salada, tomar uma coca de anteontem... colocar meu moletom furado minha blusa de dormir, enfiar-me debaixo das cobertas e ver qualquer coisa que seja na TV...

Hoje a solidão e o ócio ganharam...

Mas amanhã vai ser diferente.

- Devo me preocupar com você?

- Só se você quiser...

Hoje é noite pra Bob e Charlotte.

Monday, July 17, 2006


Decisão:

do Lat. decisione

s. f.,
ato ou efeito de decidir;
resolução;
deliberação;
sentença;
intrepidez;
coragem;
desassombro;
fim.

Quando tinha por volta dos meus 14 anos, ao olhar para trás, já era possível ver um trecho caminhado, e também já não ver a parte dele que a neblina escondia. Pelas manhãs, gostava de olhar no espelho e procurar pêlos no rosto que eu pudesse, com alegria, chamar de barba! Sempre quis ter a barba cheia! Se quando crescesse, meus belos olhos não convencessem as gurias do meu charme e tampouco meu cabelo rude agradasse.... pensar que minha barba cheia, que feita deixasse no rosto aquele tom verde dos galãs do horário nobre, seria um atrativo a mais ao público feminino, me fazia sentir melhor.

Naquela época, já tomava decisões. Mas longe de mim ter de decidir com qual das garotas que iam a única boate da cidade no sábado a noite eu iri dançar... não... nunca fui um Don Juan, nunca dancei bem... nunca fui bom em "chegar". Meu coração palpitava com a simples possibilidade de me imaginar levando um indigno fora, me dava arrepios, me fazia suar frio, me dava aquela sensação gélida e aquele medo de ouvir "Quem você pensa que é? Sai daqui moleque!" Tinha dificuldades com a rejeição nessa época, (Tinha?).

Decidir sobre o futuro. Sobre o quê queria para a minha vida. Se acho uma atrocidade pedir a um adolescente que escolha aos 17 anos o que vai ser quando crescer, imaginem eu! Com 14, escolhendo! Decidindo! E decidi... decidi que não queria trabalhar com graxa, que estava numa empresa multinacional estável e que dali a poucos anos eu seria "Operador A" (que era o sonho de todo office boy na minha idade). Decidi que cresceria, casaria e por volta dos 45 estaria aposentado com uma bela quantia por mês, uma casa na praia, uma chácara e teria filhos na faculdade!

Foi a decisão errada mais acertada da minha vida.

Os anos se passaram e hoje sou ator. Às vezes mexo com graxa e só sou "Operador A" quando faço a sonoplastia de algum espetáculo que dirijo e por falta de outros operadores, só sobro eu, o único, o "A ".

Escolhi ser ator, escolhi a vida que tenho, tudo o que sou hoje é resultado da excelente criação que recebi de meus pais e das escolhas que fiz, as chamadas "decisões". Decidir largar um emprego para ganhar R$ 200 por mês fazendo monitoria para crianças. Decidir ser alguém debaixo de uma maquiagem branca e uma roupa que, não tentem me enganar... era de palhaço! Fui palhaço e fui feliz. Decidir com quais mulheres deitaria, decidir com quais não me deitaria (um número absurdamente menor que o da primeira opção...), decidir não me casar, não me envolver, decidir que a carreira era mais importante, decidir que em algum momento errei no grau de importânica disso, decidir que algumas pessoas valiam a pena e errar, decidir que algumas pessoas não valiam a pena e errar também. Decidir ser alguém debaixo de tudo aquilo e decidir deixar de ser.

Encarar a dificuldade que é tomar uma decisão é coisa para gente grande. O garoto de 14 anos que se olhava no espelho a procura de alguns fiozinhos não tinha idéia do que o aguardava! E então eu ouvi, pensei, repensei, sofri o que podia e não podia, e decidi... deliberei... tive coragem... enfrentei o assombo... resolvi que era o fim.

Fim? Mas que nada! Sai da minha frente que eu quero passar! Os mêses que se seguiram foram de confusão, de incerteza, de choro no banheiro com a música alta vindo da sala... foram de olhar para o espelho procurando por aquele garoto e perguntar a ele "E agora cara? Me ajuda!". E num dia ele apareceu, sorriu pra mim, parecia olhar-me de ponta à ponta, ou pior, parecia olhar-me por dentro... olhou fundo nos meus olhos e disse:

"Eu sabia! Olha aí o seu rosto verde! Igualzinho ao que eu imaginava!"

Grande garoto... tenho orgulho dele.

Hoje eu começo a escrever neste Blog, exatamente 1 ano após uma das decisões mais difícies da minha vida. Certamente ninguém vai ler. Um ano da virada... do momento exato em que tirei a cabeça de dentro d'água, enchi os pulmões e notei que há um mar gigantesco ainda à minha frente. Ainda não vejo terra lá do outro lado, mas... quem disse que é terra que eu quero? Enquanto há água, eu quero nadar...