
A possibilidade de amar.
Sua volta foi triste. O caminhar pela Avenida Paulista em meio à tantas luzes que por diversas vezes foram a meia luz daquele amor inabalável, foi longa e infinita. Não havia forças se quer para levantar o rosto e sentir a garoa daquele gélido julho caindo sobre seu rosto abatido. Um rosto que carregava marcas, muitas, cada traço naquela noite parecia ser o leito da dor do mundo, parecia ter a profundidade de um cannion, por onde corria o espesso líquido da melancolia. Aquele rosto trazia consigo as marcas do indefensável golpe da quebra... do rompimento, do fim em si.
Perambulando num sem rumo, atravessava por entre os carros e seus faróis, numa evidente busca de sentido, de carinho, de compreensão, de alguém que o pudesse segurar pelos braços, protegê-lo do sereno leve que caia e dar-lhe o ombro em sinal de ternura. Ternura... foi tudo o que ele...
Enquanto sua cabeça girava e seu coração sentia aquela sensação estranha e insuportável, aquele aperto de que passamos a vida fugindo, algo que se tivesse cor seria um amarelo fustigado e morto, de folha seca que despenca no outono, enquanto seus ombros pesavam feito sacos de cimento duro e velho, seus olhos choravam... sem pudor, sem medo, sem a menor vontade de parar... Em alguns momentos, quando não estava absorto em seus pensamentos sobre a forma com que tudo acabara, sobre como o fim poderia ser tão inesperado, sobre como nem toda vontade consegue vencer às chuvas, o frio e às tempestades de areia, aqueles incontáveis momentos em que nos sentimos perdidos, cegos, precisando desesperadamente retirar a cabeça para fora de alguma forma e observar de cima, de fora, de outra maneira, enquanto não pensava nisso, notava que de seus olhos brotava mais água do que a que escorria por sua jaqueta de couro preto que o protegia da umidade fria da avenida naquela noite especialmente.
Pensou ele que esta é uma cidade que endurece as pessoas, que as torna inacessíveis por períodos longos demais. Tempo demais às vezes transforma a tensão em quebra. E ele tinha medo, sempre teve. O medo da solidão, da velhice, da falta daquele calor a que ele aos poucos se acostumava. As mãos no bolso não deixavam que sue sangue circulasse naturalmente, mas nem parecia ser este o seu objetivo... ele queria caminhar, andar talvez a procura de um esbarrão, fosse em alguém ou na melhor das hipóteses num carro em alta velocidade. Vez ou outra, nosso inconformismo pode nos ser fatal.
Lembrava das últimas palavras que ouvira a pouco e sentia que elas ainda o cortavam, feito facas cegas, enferrujadas, possuidoras de um tétano mortal que paralisaria suas pernas, braços e tudo mais, tétano que ele torcia para que paralisasse também seu coração, suas idéias, sua mente, seus pensamentos. Queria desaparecer feito ar e ser poupado de ter que lembrar de cada uma daquelas palavras para sempre.
Foi quando, num súbito lampejo de esperança, de vontade incontida de amar que tomou conta de seu frio e abatido corpo, deu meia volta. Decidiu que não era este o fim que ele pensou, não foi o que ele desejou, tirou as mãos do bolso e correu de volta, enfrentando a noite cortante e o vento contrário da avenida. Correu disposto a reaver, a retomar, a reconquistar o que nunca deixara de ser seu. Tomado por uma força descomunal e incessante, dava passadas largas na direção do que julgava ser seu destino, seu grande amor, sua grande chance, sua única possibilidade de sobreviver ao afastamento e a solidão implacável que esta cidade nos submete. Era o inconformismo com o fim, com a quebra, com o capítulo final. Sua propulsão era tamanha que nada via à sua frente, nem poças, pessoas, buracos, carros, luzes, jardins...
Enfim ele chegou. Em frente ao cinema onde aquele relacionamento há poucos minutos havia terminado e o descontruído de tal forma, que por alguns segundos em sua caminhada ele chegou a pensar que só a morte o aliviaria da dor do desamor, ele infiltrou-se pelo aglomerado de gente, que mantinha a distância da dignidade e do respeito à poça de sangue quente que não cheirava, mas imprimia ao ar aquela fumaça inconfundível, abaixou-se lentamente, segurou sua mão que de tão quente não lembrava em nada alguém sem vida, e cessou o choro.
Olhou profunda e sinceramente em seus olhos, pediu desculpas e num murmuro, fez - lhe uma última declaração de amor. Tarde... o rompimento, a quebra, o afastar-se, as palavras foram muito mais duras para ela, que não teve forças nem para pensar sobre o assunto. Ela encontrou a solução distante só três metros da calcada do cinema, embaixo de um caminhão que levava flores para abastecer as barracas da Dr. Arnaldo...
Nós e a nossa (in) possibilidade de amar...






